terça-feira, 4 de novembro de 2008

Paulo Mamede diz que parecer não-oficial contra o ICA é fruto de quem quer boicotar o projeto

O coordenador de Comunicação e Marketing Institucional da UFC, Paulo Mamede, afirmou hoje logo após terminar a coletiva que o parecer negativo sobre a implantação do ICA no Sítio Alagadiço Novo é fruto de quem quer boicotar o projeto. Ele disse acreditar em nomes que possivelmente poderiam ter espalhado a negativa, mas não quis citá-los.

O parecer contrário, assinado pelo arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim, surgiu inicialmente na lista de e-mails da Casa de Rui Barbosa. Mamede concluiu que foi a partir desta lista que o jornalista Fábio Campos, do Jornal O POVO, teve acesso às informações para divulgar hoje em sua coluna, intitulada "Um não rotundo ao projeto do ICA".

Campos transcreve trechos do documento do IPHAN, supostamente assinado no último dia 10 de outubro, que seguem: "O Iphan deve rejeitar categoricamente a proposta de instalação, no seu terreno, de qualquer intervenção que: não seja de interesse direto para as funções originais do Parque do Alagadiço Novo conforme definidas na Resolução nº 196, de 23 de setembro de 1966; Apresente porte, cores, volume, linhas, textura ou demais condições contrastantes ou capazes de competir com a simplicidade, nem tampouco ferir a memória daqueles que erigiram e dos que hoje preservam este patrimônio; Desmereça ou desvalorize os valores materiais e significados imateriais ali preservados para a sociedade brasileira e não para usuários transitórios; Caso se tratasse de um empreendimento passível de receber a aprovação por parte do Iphan, nenhum sinal de aprovação deveria ser concedido sem uma prévia solicitação à Universidade dos indispensáveis estudos de Impacto Ambiental. Como somos de Parecer favorável à total rejeição pelo Iphan à proposta, tal exigência torna-se dispensável. A implantação da proposta em terrenos da Casa de José de Alencar faz-se à custa da integridade e autenticidade do sítio tombado. O sítio não suportaria a quantidade, magnitude e sinergia dos efeitos negativos".

O IPHAN-Ceará ainda não confirmou que o documento que vazou à imprensa seja oficial.

AINDA EM TEMPO - O reitor Jesualdo Farias vai a Brasília a partir da próxima semana para tentar arrecadar o montante de R$ 3 mi até o final do ano para o início do projeto. (com informações de Débora Medeiros, direto da Reitoria)

Jesualdo Farias diz que o espaço do campus do Benfica está sendo ampliado

O reitor Jesualdo Farias está ampliando o espaço do campus do Benfica. De acordo com ele, obras já estão acontecendo na Faculdade de Economia, Atuária, Administração, Contabilidade e Secretariado (FEAACS), na Faculdade de Direito e na Faculdade de Educação (Faced). A compra do terreno do Hospital Psiquiátrico Mira y Lopez já está, inclusive, sendo negociada. Além disso, nas palavras do reitor, a realocação dos cursos que sairão do Benfica permitirá maiores possibilidades para os departamentos que ficarão no campus. (com informações de Débora Medeiros, direto da Reitoria)

Jesualdo não vê necessidade de residência universitária no Sítio Alagadiço Novo

O reitor Jesualdo Farias disse não ver necessidade de residência universitária no Sítio Alagadiço Novo, onde possivelmente será construído o ICA. Para ele, novas moradias nos campi do Pici e do Benfica suprirão essa demanda. Farias prometeu ainda construir um refeitório para os estudantes igual ao Restaurante Universitário do Benfica. O pró-reitor de graduação, Custódio Almeida, complementa as declarações do reitor: os campi deverão estar integrados ao Plano Diretor da cidade. (com informações de Débora Medeiros, da coletiva na Reitoria)

O IPHAN-Ceará age contra sua própria política nacional, diz Jesualdo Farias

O reitor Jesualdo Farias declarou há alguns minutos, na coletiva de imprensa de apresentação do projeto do ICA, que o IPHAN-Ceará está agindo de maneira contrária à política nacional do próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Segundo ele, o IPHAN tem se aliado às universidades, procurando revitalizar os entornos de ambientes tombados. Farias diz estar surpreso com o parecer negativo não-oficial para a construção do ICA na Casa de José de Alencar, no Sítio Alagadiço Novo.

AINDA EM TEMPO - Participam da coletiva o reitor Jesualdo Farias, o vice Henry Campos, os dois arquitetos do projeto, o pró-reitor de graduação Custódio Almeida e representantes dos cursos.

AINDA EM TEMPO 2 - "Hoje a UFC tem obras em todas as suas unidades", diz Jesualdo. Segundo ele, isso levou a um rearranjo das unidades atuais, incluindo o ICA e o Labomar.

(com informações de Débora Medeiros)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Reitor apresenta à imprensa o projeto do ICA

O reitor recém-eleito Jesualdo Farias apresenta amanhã à imprensa cearense, a partir das 8h30min, o projeto do Instituto de Cultura e Arte (ICA). A coletiva, que acontece no gabinete dele, na Reitoria, pretende tocar em pontos cruciais da obra como planejamento arquitetônico, a decisão de instalar a nova unidade acadêmica no Sítio Alagadiço Novo e os impactos ambientais que a construção vai causar ao lugar - onde foi erguida a Casa de José de Alencar em 1826.

O Instituto é motivo de polêmica na comunidade acadêmica há pouco mais de seis meses, quando sua criação foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni). O projeto faz parte do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que destina verba pesada para novos campi. Segundo os estudantes, a idéia foi aprovada sem consulta prévia aos afetados pela mudança. A Reitoria contesta.

Confira amanhã os detalhes da coletiva transmitidos pela repórter Débora Medeiros, direto do gabinete do Reitor.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Entrevistas com os candidatos

O debate terminou sem uma palavra sobre o Instituto de Cultura e Arte (ICA), mas o Jabá não poderia deixar o assunto passar em branco. Foi ainda entre apertos de mão e tapinhas nas costas dos correligionários que cada candidato recebeu a proposta de conversar sobre o ICA com nossos repórteres Débora Medeiros e Wanderley Neves Neto. Confira as idéias de Benito Azevedo, Jesualdo Farias e José Carlos Parente sobre o assunto, na ordem em que foram entrevistados.


Benito Azevedo

Jabá: Se o senhor for eleito reitor, qual é a sua proposta pro ICA?

Benito Azevedo: Na verdade, o ICA vai precisar de um remendo. Remendo esse por quê? Porque foram criados cursos, que hoje estão compondo o ICA, pelas gestões anteriores sem condições, simplesmente com o intuito de aumentar o número de vagas da UFC para a sociedade, mas esse número de vagas não foi aumentado ordenadamente. Então, nós temos hoje o curso de Estilismo e Moda que faz parte do ICA, foi recém-transferido do meu Centro [de Ciências Agrárias] e eu conheço bem porque esse curso era co-irmão do meu departamento. Eu fui chefe de departamento e nós sabemos que lá eles têm 70%, 80% ou mais de professores substitutos. Por que isso? Porque fizeram a promessa de criar o curso e não cumpriram a promessa, ou seja, o curso foi apenas criado, depois não teve uma lógica de apoio como deveria ter tido. Assim como se encontra o curso de Jornalismo, da Comunicação Social, que também foi criado dessa forma e também tem um elevado número de professores substitutos. São professores que não têm aquele compromisso, vínculo, com a Universidade Federal do Ceará. Então, nós teríamos que fazer um remendo pra tapar buracos, vamos assim dizer. E, sendo reitor, tudo o que fosse feito para o ICA ia ser planejado com coerência e determinação, pra não criar um problema para os futuros gestores. Ou seja, toda obra, toda ação na minha gestão com certeza não trará problemas para as outras. E essa gestão, se eu receber, eu tô recebendo com problemas, no curso de Medicina do Cariri, no curso de Medicina de Sobral, no Estilismo e Moda, no Jornalismo... Nós teríamos que passar um bom tempo saneando, assim, a universidade.

Jabá: E no caso da criação de vagas pra professores efetivos com a criação do ICA, como ficaria?

Benito: Pois é, isso aí ia ter que ser decidido na comunidade. Por quê? Eu também não posso pegar os outros cursos que tão necessitando de vagas e remanejar todas as vagas pro ICA. Por quê? Se nós temos esses quatro cursos citados com problema de vaga, se eu tirar vagas de outros cursos, o que é que vai ocorrer? Ao invés de quatro cursos com problema gravíssimo, eu terei quatro com problema grave e uns 40, 50 cursos com alguns problemas. Mas nós teremos que, gradativamente, nos concursos, ir colocando um número de vagas maior pros cursos mais necessitados, mais prejudicados. Portanto, os alunos do Estilismo e Moda, os estudantes de Jornalismo, da Medicina no Cariri e em Sobral e de outros cursos que venham a ter o mesmo problema, eles não têm culpa. Eles tão aqui na Universidade Federal do Ceará e eles merecem ter um ensino de qualidade, um ensino realmente que possa capacitá-los para colocá-los no mercado de trabalho.

Jabá: E quanto ao Reuni [Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais], qual o seu posicionamento?

Benito: O Reuni, eu acredito que ele tá completamente equivocado, partindo do princípio de que ele não passou pelo crivo da UFC. Quer dizer, os estudantes fizeram algumas movimentações, eles fizeram algumas poucas reuniões aonde nós não tínhamos vozes, vozes dos estudantes e dos professores. Os próprios professores. Eu não me sinto escutado pelo Reuni, então eu não posso defender o programa. Ele é um programa do Governo Federal pra inchar a UFC hoje. Porque, se nós tamos com um problema de vaga pra professor, como é que nós vamos criar um programa pra aumentar o número de vagas? Nós, na gestão da UFC, o primeiro passo que nós pensaríamos em dar seria abrir cursos noturnos, ou seja, com os mesmos professores: o professor que dá aula de manhã e de tarde, ele taria de tarde e de noite. Ou seja, os professores fariam opções de horários pra que o estudante carente, digamos assim, o estudante que não tenha sido abonado pela sociedade, que não nasceu na classe média ou média pra superior, ele tenha condição de trabalhar e manter seus estudos, porque nós temos conhecimento que mais da metade da evasão escolar na UFC são de estudantes carentes que não têm condição de permanecer na universidade. Então, esse é um problema gravíssimo que nós temos que combater, mesmo antes até da criação de vagas, ou seja, remanejar professores para o turno da noite, de forma que os estudantes, todos os estudantes, possam se manter, alguns sem trabalhar, os mais abastados, mas que a gente dê condições, pelo menos, de o estudante carente fazer um curso com dignidade, com competência, com dedicação. E que no futuro ele represente a nossa universidade como nós queremos: forte, com referência nacional.


Jesualdo Farias


Jabá: Pode-se dizer que o processo do ICA está em um estágio avançado?

Jesualdo Farias: A etapa mais complexa do processo foi a consolidação do ICA enquanto Unidade Acadêmica. Então, nós acompanhamos a comunidade na discussão. Iniciou-se essa discussão ainda no ano passado (podemos dizer que foi mais de um ano de discussão): a comunidade encontrou um consenso, aglutinou as diversas áreas que vão compor o ICA; o Conselho Universitário aprovou a criação da Unidade Acadêmica; a Administração Superior da Universidade apóia e compreende a importância dessa nova Unidade Acadêmica; e, agora, nós estamos, eu poderia dizer, numa etapa final de estruturação do projeto no que se refere à estrutura física para que a gente possa encaminhar essa documentação para o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], que, por sua vez, vai fazer toda a análise para definir a localização dessa estrutura lá no Alagadiço Novo. Então, no momento, até onde venho acompanhando, nós estamos cumprindo o cronograma; é nosso desejo começar as obras ainda este ano. Naturalmente, estou aqui falando na qualidade não de candidato a reitor, mas de reitor em exercício, que estarei já a partir da próxima sexta-feira retornando às atividades. Inclusive, estamos já com vagas para professor destinadas a essa nova Unidade, que, na última reunião do Conselho Universitário e do Centro [de Humanidades] teve a sua estruturação gerencial e funcional aprovada.

Jabá: E, como candidato a reitor, quais são as perspectivas para o ICA?

Jesuldo: Se nós formos reitor da Universidade, eu tenho dito isso sempre, o ICA vai receber um tratamento muito especial, porque nós compreendemos essa nova Unidade Acadêmica como uma Unidade que vai fomentar várias demandas, principalmente na área de cultura, já que nós estamos com essa dívida. A Universidade, que já pautou a cultura do estado do Ceará, hoje está praticamente à margem desse processo. Então, nós queremos reconquistar a posição de vanguarda nesse processo, e temos uma esperança muito grande de que o ICA seja esse indutor. E nós queremos revitalizar espaços como o do nosso Teatro Universitário, intensificar mais as utilizações de outros espaços como o nosso Museu [de Arte da UFC, MAUC], a nossa Casa Amarela, a própria Concha Acústica. E, por que não dizer, criar outros espaços, porque nós compreendemos que o que está faltando hoje, na verdade, é a vivência acadêmica; nós temos bons gestores, nós temos pessoas preocupadas, nós temos pessoas que trabalham até sem muitas condições de apoio físicas, condições de pessoal, mesmo de recursos, mas eu compreendo que as coisas só vão acontecer na intensidade que a gente espera quando tivermos atividade acadêmica plena de diversas áreas, não só da cultura, mas da arte, e isso tudo vai contribuir para novos projetos, para novos eventos e para a gente voltar a ser vanguarda e voltar a pautar a arte do estado do Ceará.

Jabá: O senhor pensa que algum dos outros candidatos, caso seja efetivado como reitor, continuará o projeto do ICA?

Jesualdo: Isso você tem de perguntar a eles. O meu compromisso é de manter o projeto, até porque é compromisso de quem criou a Unidade. Criamos e vamos consolidá-lo, com certeza, se formos reitores.


José Carlos Parente


Jabá: Então, professor, qual a sua proposta pro ICA?

Parente: O Instituto de Cultura e Arte é uma proposta antiga que foi materializada na gestão do professor René. A cultura e arte eu vejo como um dos quatro elementos que são essenciais ao desenvolvimento da pessoa, juntamente com a tecnologia e a ciência. Particularmente, eu, pessoalmente, não teria nenhuma proposta minha pra esse Instituto de Cultura e Arte. Bem entendido: eu não saberia qual a feição que ele deve ter, como é que ele deve ser. Quando reitor, eu reuniria, coordenaria um trabalho junto com a comunidade e com os responsáveis pelos equipamentos de cultura e arte da UFC, pra que a gente pudesse fazer um programa, um projeto que de fato fosse representativo das artes e da cultura do ceará, inicialmente. Também defenderia, junto à comunidade, que esse instituto pudesse, de forma bastante clara e viva, fazer uma ligação entre as manifestações culturais que estão dentro da universidade e seus equipamentos culturais com a comunidade que está no entorno dos campi da UFC. Sem esquecer que a arte e a cultura não são, assim como ciência e tecnologia, não são algo que está desvinculado, não são algo que seja estanque num determinado local, que esse instituto e a comunidade própria dele pudessem encontrar meios que as manifestações culturais que são próprias nossas possam ser difundidas pra fora da universidade, pra fora da comunidade e pra fora do Ceará. Assim como também absorver ou trazer pra dentro do Ceará e da UFC manifestações culturais que sejam de outros locais. Enfim, nós defendemos um projeto em que cultura e arte também possam ser democratizadas, possam respeitar diferenças, possam primar pela liberdade de expressão, que são bem essenciais em uma universidade que quer ser pública, democrática, gratuita, de qualidade, com referência na sociedade.

Jabá: Professor, quanto aos cursos que estão no interior do Instituto agora, qual seria a participação deles na construção desse projeto?

Parente: Olhe, todos os cursos que o Instituto de Cultura e Arte tem no seu interior teriam que se manifestar, a sua comunidade se manifestar, e se agregar a esse projeto maior de tornar a cultura e a arte dentro da UFC um projeto que possa utilizar, aproveitar, difundir a cultura e a arte dentro da nossa comunidade. Por exemplo, o curso de Estilismo e Moda, durante muito tempo, foi um curso de feição estranha dentro do Centro de Ciências Agrárias. Era algo que era incompreensível como um curso dessa natureza estava naquele local. Agora, ao ser parte do Instituto de Cultura e Arte, ele está num local que lhe é próprio, porque moda e estilismo, a gente pode contar histórias de cultura e arte, tendo como base o modo como a humanidade se vestiu. Quer dizer, roupa, se a gente diz de uma forma genérica, não é só uma forma da gente se proteger contra o clima, é também uma forma de se manifestar o gosto interior do ser humano, não é só proteção: é proteção aliada com manifestações do interior das pessoas e também manifestações da pessoa com o meio em que ela está inserida.

Jabá: O professor Jesualdo afirmou que o projeto do ICA está em uma etapa final, inclusive falou da possibilidade do início das obras ainda esse ano. O senhor pararia esse processo e voltaria a essa fase, como o senhor falou, da discussão?

Parente: Olhe, eu sempre defendi e continuarei a defender que nós tenhamos uma universidade em que a comunidade participe. Por exemplo, eu sou um professor que conheço uma quantidade razoável de informações dentro da UFC, eu acompanho várias discussões e, sinceramente, ao longo do estabelecimento desse Instituto de Cultura e Arte, muito pouco de discussão foi feita. Se a gente sair a perguntar à comunidade da UFC o que é Instituto de Cultura e Arte, como é que ele está sendo realizado, pouca gente saberá. Por quê? Porque as decisões na universidade são tomadas por grupos restritos de pessoas. A gente não vê tanto uma discussão geral do que acontece dentro da universidade. Parar as obras ou parar o projeto do Instituto de Cultura e Arte talvez não fosse a solução a ser tomada, mas certamente, eu reuniria a comunidade, pra ouvir dela se o que está sendo feito está, de fato, privilegiando, se estão sendo consideradas as discussões daqueles que fazem a comunidade deste importante ramo de atividade que é a cultura e arte. Então, parar não seria a decisão tomada a priori. Se a comunidade chegasse à conclusão de que outra feição deveria ser feita, nós com certeza acataríamos a decisão da comunidade envolvida.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um debate de fôlego, uma corrida contra o tempo

A UFC enfrenta, mais uma vez, um processo de sucessão de última hora. O último havia se iniciado em plenas férias do semestre 2006.2, quando o reitor René Teixeira Barreira renunciou ao cargo, para assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do governo Cid Gomes. O resultado foi a eleição do então vice-reitor, Ícaro de Sousa Moreira em março de 2007. As eleições atuais ocorrem após a morte súbita do professor Ícaro, vítima de um infarto fulminante abril passado. Segundo o Ministério da Educação (MEC), o vice-reitor, Jesualdo Farias, só poderia ter assumido como reitor caso Ícaro houvesse cumprido pelo menos metade do seu mandato. O MEC, então, determinou que fossem realizadas novas eleições. O Conselho Universitário (Consuni) cogitou até mesmo a elaboração de uma lista tríplice sem consulta prévia à comunidade acadêmica, mas a medida não foi aprovada. E, assim, teve início mais um processo eleitoral com pouco tempo hábil para discussão, como prova a realização do primeiro e único debate entre os candidatos apenas dois dias antes da votação.

Segunda-feira, 18 de agosto, 10 horas da manhã. O Auditório Castello Branco estava lotado: acomodados nas poltronas e no carpete azuis, figurões do alto escalão administrativo da UFC, professores, servidores, jornalistas e estudantes aguardavam o início do debate entre os candidatos a reitor. Em poucos minutos, os professores Jesualdo Pereira Farias, Benito Moreira de Azevedo e José Carlos Parente de Oliveira foram chamados, nessa ordem, a compor a mesa, cada um arrancando palmas de seus respectivos apoiadores.

Desde esse momento, era perceptível a atmosfera que permaneceria ao longo do debate, algo como um duelo entre torcidas organizadas, com direito a uniforme (a sala estava coalhada de camisas azuis, dos eleitores de Jesualdo Farias, e de camisas brancas, de quem votaria em Benito Azevedo; os apoiadores de José Carlos Parente traziam adesivos no peito), gritos e deboches, os quais, mais tarde, levariam o professor Benito a repreender a audiência: "Me surpreende ver professores de cargos comissionados agindo dessa forma", disse. "Isso é democracia, ouvir o que não se quer também".

Mas não nos adiantemos aos fatos. Agora que o leitor sentiu o clima, vamos aos pontos altos do debate, que durou cerca de duas horas, divididas em quatro blocos. Apenas a Associação dos Docentes da UFC (Adufc) participou da organização. O Sindicato dos Servidores da UFC (SintufCE) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) afirmam não concordar com o processo não-paritário.

1º bloco: apresentações

Cada candidato teve seis minutos para fazer uma apresentação geral de si próprio e de suas propostas. Por sorteio, Jesualdo Farias foi o primeiro a falar. "Compreendo que o vice-reitor, de acordo com o que postula nosso estatuto, deveria dar continuidade ao mandato", afirmou, acrescentando, no entanto, que fora favorável à consulta à comunidade quando da votação no Consuni da determinação do MEC. Jesualdo qualificou seu mandato junto ao reitor Ícaro Moreira como "um ano e dois meses de realizações", das quais destacou o que considera melhorias na assistência estudantil, como a oferta de refeições vegetarianas no Restaurante Universitário e o aumento na quantidade de bolsas, assim como em seu valor, que passou de R$200 para R$ 300. Anunciou, ainda, a construção de duas novas residências estudantis: uma no Benfica e uma no Pici.

Benito Azevedo, por sua vez, passou cerca de cinco dos seis minutos de sua apresentação detalhando a própria trajetória acadêmica, com ênfase na sua atuação no movimento sindical, através da Adufc (Associação dos Docentes da UFC), e administrativa, como chefe do departamento de Engenharia Agrícola. Benito afirmou defender a paridade em todas as instâncias decisórias da universidade, além das eleições, e conclamou aqueles que concordam com ele a participarem da consulta: "Eu acho que a melhor resposta de estudantes e servidores a quem é contra a paridade é derrotando na urna". Quanto à sua proposta como candidato, disse apenas: "A minha proposta... Não tem proposta", o que provocou risos em parte da audiência. Ele explicou, então, que tudo seria decidido junto à comunidade universitária.

José Carlos Parente pouco falou de sua trajetória de mais 30 anos na UFC, optando por anunciar que, se eleito, seu primeiro ato seria instalar uma estatuinte. "O autoritarismo desse estatuto fomenta o continuísmo", acusou, prometendo que "o novo estatuto será atual, preciso e democrático". Outra medida defendida por Parente é a descentralização do orçamento universitário. Segundo ele, a configuração atual, em que as verbas estão concentradas nas mãos do reitor, leva os diretores de centro e chefes de departamento a "mendigar" pelos corredores da Reitoria, quando precisam de financiamento para projetos ou dinheiro para algum conserto emergencial. O candidato também disse exigir transparência no que diz respeito às fundações privadas existentes na UFC, como a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC): "A falta de transparência é tal, que nós não sabemos o que acontece nas fundações privadas", disse.

2º bloco: cobranças e indagações

Os candidatos puderam fazer perguntas entre si, com direito a réplica e tréplica. Benito perguntou sobre a opinião dos outros dois professores sobre a paridade e se eles concordariam em retirar suas candidaturas até que fosse possível realizar eleições paritárias. Jesualdo afirmou que a proposta já foi submetida ao Consuni, mas disse que a paridade só seria possível de fato com a conquista da autonomia plena, desvinculando o resultado das eleições da aprovação do presidente da República. Parente afirmou que seu desejo era que as eleições atuais já fossem paritárias e contra-argumentou: "Que moral tem alguém pra ir ao MEC pedir autonomia quando as decisões ainda são tomadas de forma autoritária na universidade?", ao que Jesualdo respondeu ser a autonomia um compromisso não só de sua candidatura, mas de sua gestão anteriormente. "É só compromisso que se quer?", indagou Parente. "O compromisso que mais vinga nessa universidade é a troca de cargos, é a troca de empregos", acusou.

Benito refez o convite aos candidatos para que retirem suas candidaturas, assinalando que nenhum deles havia respondido. Parente, então, mostrou um documento assinado por ele, em resposta afirmativa à pergunta.

Parente perguntou a Jesualdo o porquê de sua permanência no cargo de vice-reitor durante e mesmo depois das eleições, caso perca na consulta. Segundo o professor, isso contraria o estatuto da UFC, ao que Jesualdo replicou: "Eu gostaria que o senhor lesse o nosso estatuto, porque parece que o senhor só está interessado nas regras aplicadas a consultas feitas em circunstâncias de normalidade. A UFC está passando por um processo de excepcionalidade".

3º bloco: o público se manifesta

Das três perguntas lidas pelo mediador, a do servidor César Pontes foi a mais abrangente, pedindo que os três candidatos avaliassem a atual gestão. Jesualdo foi o primeiro a responder, listando ações nas áreas de extensão, assistência estudantil, pesquisa, graduação e pós-graduação, inclusive com a criação de novos cursos. Parente citou o contexto nacional de fomento ao Ensino Superior e acusou Jesualdo de tomar para si méritos que não eram dele: "Não dá pra dizer que todo esse blábláblá é seu, essa universidade caminha com pés próprios, a administração superior muitas vezes atrapalha", disse. Já Benito reforçou o caráter participativo que sua gestão teria: "Eu faria tudo isso com a comunidade e melhor", garantiu, mais uma vez provocando deboches do público.

4º bloco: pedidos de participação

Por cinco minutos, cada candidato fez suas considerações finais, com pedidos de votos e de participação da comunidade universitária. Benito assinalou que Jesualdo não havia se manifestado quanto à proposta feita por ele para retirar as candidaturas até que se pudessem fazer eleições paritárias.

Parente disse perceber "um riso de desfaçatez" entre os ocupantes de cargos comissionados (cargos de confiança) presentes no debate. "Aqui, só quem consegue as coisas é quem verga as costas, mas ainda há pessoas que não aprenderam a vergar as costas", bradou, acusando Jesualdo de pertencer a uma "oligarquia", no poder desde antes dos tempos do reitor Roberto Cláudio, do qual o reitor René Barreira já fora vice.

Jesualdo disse lamentar "profundamente" estar participando de uma consulta para reitor naquele momento, pois esta só estava acontecendo devido ao falecimento do reitor Ícaro Moreira. "O professor Ícaro não saiu pra ser vice-reitor conduzido por uma oligarquia, mas pelos méritos dele", disse Jesualdo, repelindo as acusações de Parente.

Com isso, o debate foi encerrado. Quer todos os esclarecimentos necessários tenham sido prestados em duas horas ou não, esta foi a última oportunidade para ouvir as propostas de cada candidato antes da votação. Mas você ainda pode acessar a página referente à consulta no site da UFC e tirar as próprias conclusões. Se se sentir seguro para votar, apareça em alguma das seções espalhadas pela universidade nesta quarta, dia 20. Confira os horários de funcionamento e localizações de todas elas aqui.

AINDA HOJE NO BLOG: Entrevistas exclusivas com os candidatos sobre o Instituto de Cultura e Arte (ICA).

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sete comentários à-toa

Primeiro, deixo bem claro: não sou nem um pouco antipático à idéia (por enquanto, é só o que temos) do ICCA. O Instituto é bastante necessário, bem-vindo, providencial, esperado, ansiado, desejado e mesmo amado antes de sequer ser concebido. Mas, aqui no Benfica, integrado aos demais equipamentos da UFC (Casas de Cultura, Casa Amarela, Rádio Universitária, MAUC e os outros cursos da área de humanas, como ciências sociais, filosofia, história, letras, direito, biblioteconomia, arquitetura que, lembrem-se, NÃO VÃO para Messejana na nossa lancheira), e não lá na baixa da égua. É sempre bom repetir as coisas. Dito isso, sigo. Vou fazer uns comentários meio soltos e, em seguida, tentar amarrar tudo.

1. Não fica clara na matéria da Débora (não como devia) a posição da gestão do diretório acadêmico do curso de comunicação social da UFC. Faltou uma fala mais objetiva de alguém do DA. E uma pergunta bem simples: o DA é contra ou a favor? No final das contas, fiquei com a impressão de que eles são contra a mudança. Mas com a dúvida: são mesmo? Se são, por quê? Do contrário, a mesma coisa: por quê? No meio do balaio, alguém se desculpa por uma aparente contradição (dissemos sim ao projeto e agora o rejeitamos). Ou isso ou a maconha que estou fumando tá bichada.

2. Após a leitura, tive a clara certeza: a decisão do departamento foi tomada de afogadilho (porque o dinheiro tava ali e ninguém pode dispensar tanta grana sem se sentir culpado depois). Pelo visto, eles querem que a nossa também seja. Mas dentro de certos limites. Trata-se de uma questão intramuros, “doméstica”, tipo marido e mulher. A sociedade que paga os nossos estudos não precisa ficar se metendo nisso. Os demais campi da universidade e os jornais, que devem informar essa mesma sociedade, também. Não entendo... Não mesmo. Alguém pode me explicar por que essa roupa suja tem que ser lavada em casa?

3. Serão destinados ao projeto do ICCA 41 milhões até o final do governo Lula. Fica faltando a bagatela de 79 milhões, que deve ser parcelada e encaminhada à UFC até 2012. Mas não tudo: eles não sabem dizer quanto virá diretamente do Reuni (o grosso, eu sei. Mas exatamente que percentual?) e quanto das tais emendas parlamentares, que, como leitor de jornais e estudante, fico pensando: esse negócio é mesmo seguro? Não pode melar de uma hora pra outra? E se o quadro político muda, como ficamos?

4. Amargar a denominação de “unidade acadêmica” é a única razão para não irmos brincar de esconde-esconde no Pici?! Alguém pensou no projeto não tão faraônico, mas que poderia funcionar como meio-termo nessa história: irmos pro Pici e ficarmos com um dinheirinho. E bem pertinho de casa. Quem sabe, um terço dos 120 milhões... Foi só uma sugestão.

5. Quero comentar este trecho da fala da nossa chefe de departamento. A Márcia Vidal, por quem tenho o maior apreço do mundo (foi minha professora de jornalismo comunitário), fez os estudantes entenderem que a permanência do curso de comunicação no Benfica está descartada. O motivo: nosso prédio estaria em “colapso” (recentemente, foi concluída a reforma ou construção, não sei bem, de dois estúdios nesse caquético prédio). Daí fiquei pensando: a ida para o quintal do Zé D’alencar é incerta (não podemos construir nada em área tombada); para o campus das mangueiras (Pici), a mesma coisa (não queremos ser unidade acadêmica); e, por último, ficar no Benfica não está nos planos de ninguém. A pergunta é: e se tudo der errado, pra onde iremos?!

Eu tenho uma sugestão: por que não construir um campus bonitinho lá em Guaramiranga? Seria realmente muito bom já estar lá a cada fevereiro e mesmo nos fins de ano, com o friozinho invadindo as salas de aula ou refrescando as reuniões de pauta de JABÁ. Entre uma aula e outra, vinho, cantoria e viola. Se querem mesmo incrementar as nossas festinhas (nunca fui a nenhuma, mas aceito a boa intenção), por que não Guará? Sem contar que o metro quadrado de lá é bem carinho e, se formos pensar em crescimento urbano ou mesmo no papel de fomentador da universidade pública, nada mais justo que contribuir para o desenvolvimento do pequeno município. Podemos fazer um jornalzinho denunciando o desrespeito à área de proteção ambiental e falta de vergonha da Semace, que autoriza construções a torto e a direito (inclusive a do nosso novo campus, hehe). Gestores: pensem nisso com carinho.

6. Pensei que tivesse terminado, mas continuo. Esqueci de falar do problema do mestrado em comunicação. Pois bem. A chefe alertou: podemos ser reprovados no exame do Capes caso fiquemos no Benfica. Aí chega a minha vez de perguntar: isso seria culpa de quem? Exclusivamente da política de expansão irresponsável levada adiante pela reitoria da UFC e replicada nos cursos. Por que digo isso? Cheguem mais perto e ouçam: nosso mestrado não foi criado pra funcionar em Messejana, mas no Benfica, no exato local onde se encontra ou, no máximo, no Pici, visto que o projeto de criação de mais um campus no quintal do Zé não havia sido sequer esboçado (se não existe nada de concreto hoje, há quatro meses é que não tinha mesmo). Por essas e outras, isso tem toda a pinta de desculpa (mais uma) que não cola muito bem.

7. Ninguém tá dando a devida atenção a uma promessa de campanha do Ícaro: reavivar o corredor cultural do Benfica. Na reunião de esclarecimento com a Márcia, o W. Jr. mencionou o assunto. Acho isso importante. Afinal, o ICCA esteve previsto pra funcionar no Benfica. Havia, portanto, a compreensão de que a coisa poderia mesmo ser construída por ali. No final, todos ganharíamos com isso. De repente, a mudança. Por quê?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

“A roupa suja a gente lava em casa”

Fazia tempo que a torrinha do Diretório Acadêmico Tristão de Athayde (DATA) não via tanta gente. Ainda que, numericamente, representassem, no máximo, 10% do contingente total do curso, estudantes de quase todos os semestres compareceram ontem, 8 de abril, ao encontro com a chefe do Departamento de Comunicação Social, professora Márcia Vidal.

A iniciativa partiu da gestão atual do DATA e visava prestar esclarecimentos sobre o Instituto de Comunicação, Cultura e Arte (ICCA), assunto que vem causando polêmica nos corredores da universidade desde que a implantação do ICCA na Casa de José de Alencar, em Messejana, foi aprovada em uma reunião de departamento no dia 26 de março.

Inicialmente, Márcia explicou o projeto e relatou um episódio semelhante, que ocorreu quando ela era estudante de graduação do curso. À época, foi levantada a possibilidade de o curso se mudar para o Campus do Pici, idéia que encontrou oposição entre grande parte dos estudantes e dos professores do Departamento. “Há 20 anos, quando os professores negaram a nossa ida ao Pici, eles comprometeram o nosso futuro”, constatou, remetendo à situação atual, em que o ICCA representa outra possibilidade de mudança de sede para o curso, à qual a professora se declara favorável.

Os estudantes aproveitaram a oportunidade para tirar dúvidas quanto ao projeto e questionar a pressa com que foram tomadas algumas decisões, o que inviabilizou discussões prévias. Lorena (3J), integrante da gestão atual do DATA, explicou que a própria representação estudantil só foi avisada da pauta da reunião de departamento na qual se aprovaria com unanimidade a mudança para Messejana na noite anterior ao 26 de março e, por isso, não pôde consultar os estudantes para definir uma posição. “Quanto tempo nós tivemos pra pensar? Uma noite? Realmente, é contraditório a representação estudantil se posicionar a favor do projeto na hora e, agora, mudar de posição”, disse. “Mas essa decisão foi realmente tomada entre 5 pessoas [membros da gestão] e vocês têm liberdade de se posicionar de outra forma”.

Vários estudantes levantaram objeções ao projeto, como o abandono da promessa de campanha do reitor Ícaro Moreira de revitalizar, através do ICCA, o corredor cultural do Benfica, composto pelo Museu de Arte da UFC (MAUC), o Teatro Universitário e a Casa Amarela Eusélio Oliveira. O professor Wellington Júnior, que também assisia à reunião, apontou que transferir o Instituto para a Messejana “é dizer que esse corredor vai continuar entregue às moscas, já que não tem dinheiro pra ele”.

As verbas para construção do ICCA não podem ser utilizadas para outros fins que não a criação de cursos e campi novos, conforme esclareceu Márcia Vidal. Segundo ela, o dinheiro também foi a razão para que tudo fosse decidido tão rapidamente. “A verba chegou e nós tivemos de decidir logo, antes que ela fosse pra outro lugar”, disse a professora. Cerca de R$ 3 milhões é a quantia já disponível para iniciar as obras. Até o fim do ano, estão previstos mais R$ 14 milhões, aos quais devem se somar R$ 24 milhões ao longo de 2009. O total de verbas a serem liberadas até 2012 é de R$ 120 milhões. Grande parte dessa quantia deve ser proveniente do Reuni, mas a administração da universidade também conta com a contribuição das chamadas verbas de bancada, requeridas por deputados e senadores e, segundo Márcia, já aprovadas para este ano.

Outro ponto lembrado na reunião foi que a construção do Instituto na Messejana ainda não é dada completamente como certa. A Casa de José de Alencar e seus arredores são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e, portanto, não poderiam receber novas construções em sua área. De acordo com Márcia, a assessoria jurídica da universidade está lidando com essa questão. Outra possível localização para o ICCA é o Campus do Pici, que só não é o plano A porque, na opinião da professora, “seríamos apenas mais uma unidade acadêmica”.

A permanência no Campus do Benfica não é cogitada. De acordo com Márcia, a estrutura do prédio do curso está em “colapso”, apesar das reformas por que tem passado. A professora revelou projetos de abertura de novos cursos de especialização e até mesmo de um Centro Internacional de Aperfeiçoamento em Comunicação, Cultura e Arte (CIACC), pólo de pesquisa nos moldes do CIESPAL (Centro Internacional de Educacción Superior de Periodistas para América Latina), mas tudo só seria possível com uma mudança de sede. Segundo a professora, o recém criado mestrado em Comunicação Social também estaria em jogo, visto que ele passará por sua primeira avaliação perante o Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) em 2009 e poderia ser reprovado nas atuais instalações.

Após se queixar de não ter ouvido nenhuma opinião positiva sobre o projeto em uma hora de debate, Márcia explicitou os fatores políticos que o tema envolve, destacando que, em todo o seu tempo no curso de Comunicação Social, nunca havia visto tantos recursos. Ela caracterizou como uma “briga de foice” a disputa por verbas entre os vários cursos e afirmou repetidamente que seu apoio ao projeto não era movido por interesses pessoais, pois não tem a intenção de se candidatar à diretoria do conselho que vai reger o ICCA, cargo que cabe ao curso de Comunicação Social. A professora mencionou sua atuação de 25 anos no curso e no movimento de rádios comunitárias para garantir que não arriscaria sua reputação e sua carreira acadêmica por um projeto no qual não acreditasse. Ela chegou a afirmar que se demitiria, caso os estudantes se opusessem formalmente ao ICCA, divulgando tal posicionamento fora da universidade: “A roupa suja a gente lava em casa”, recomendou.

Muitos estudantes retomaram a palavra para reafirmar sua confiança no Departamento, mas sustentaram as críticas colocadas anteriormente e exigiram que mais informações das instâncias superiores da universidade lhes fossem repassadas, de modo a permitir firmar uma posição própria. Márcia prometeu tentar intermediar uma reunião no próprio DA com o pró-reitor de Graduação e tutor do ICCA, Custódio Almeida, e garantiu que o curso terá direito a enviar representação estudantil às reuniões de constituição do projeto, que estão ocorrendo todas as quintas-feiras, às 15h, na Pró-Reitoria de Graduação, que fica no Campus do Pici. Geimison (3J), que já esteve presente na reunião da semana passada, deve continuar a representar o curso, divulgando as decisões tomadas e inserindo as preocupações estudantis na pauta das discussões. Enquanto a conversa com Custódio não acontecer, o representante se absterá das votações, já que o curso ainda não decidiu sua posição em relação ao tema.

Como lembrou Thiago “Zé” Rodrigues, é importante que os estudantes se mantenham informados e repassem informações a seus colegas. O Jabá tem procurado, desde o início, democratizar as informações sobre o projeto e está aberto a quem quiser colaborar.

sábado, 5 de abril de 2008

QUESTÕES À-TOA...

Bom, todos — os que nos representam e têm a responsabilidade de fazê-lo da melhor forma possível —, todos decidiram: vamos nós para o quintal do Zé D’alencar, nas Messejanas, bairro cujo índice de infestação do tal mosquito que vem botando quente no RJ atingiu patamares assustadores. Todos implica: nós, jornalistas e publicitários; eles, demais cursos (estilismo & moda, música, audiovisual, artes cênicas etc.). Foi assim: reuniram-se no Palácio do Reitor e acharam por bem levar adiante o mega-ultra-multiprojeto que, de tão acanhado, prevê: teatro pra mil e tantas pessoas; sets de filmagens que farão inveja aos de Hollywood; estúdios cujas estruturas, cujos equipamentos, cuja área enfim: cujo custo gira em torno de cifras altíssimas, estratosfericamente inconcebíveis. E mais tanta coisa boa pra tanta gente ao mesmo tempo e lugar que, meu Deus, cabe perguntar, temos a obrigação e mesmo decência de querer saber: vai ter dinheiro pra erguer esse colosso da pesquisa internacional, esse centro desmedido e desmesuradamente de ponta na comunicação, no estilismo, na dança, no teatro, no cinema, nas artes de modo geralíssimo? Dizem que sim. Eu duvido. Eles não só acreditam: eles querem acreditar. Palavra do Reitor. Amém.

Pois bem. Nossos professores fizeram o mesmo: reuniram-se no departamento e lançaram, sem mais nem menos, como se estivessem à mesa do bar, a nossa sorte em direção ao Cambeba, às tapioqueiras, ao Beast Park. Pois bem. No dia seguinte, tomamos conhecimento: sobrancelhas arqueadas, caras assustadas e a desconcertante frase: “Não estarei mais aqui mesmo”. A gente se assusta com essas coisas todas, professores deslumbrados com infinitos zeros (são CENTO E VINTE MILHÕES DE REAIS!!!) e alunos se resignando quando deveriam sair às ruas, com ou sem panelas, e dizer: NÃO AO PROJETO ou SIM AO PROJETO. Mas dizer. O que fosse, mas dizer. Sim ou não, mas dizer qualquer coisa exceto: eu não vou estar mais aqui mesmo. Qual nada, voltam pra casa tranqüilos e satisfeitos e distantes afinal de qualquer querela infanto-juvenil que esteja sendo forjada contra a transferência de um curso quarentão para os confins da Fortaleza sob a marmotosa e abestalhada pra não dizer idiota e inconsistente desculpa: a cidade se expande pros lados de lá, o Alagadiço tem o metro quadrado mais caro da Loura desposada pelo astro-rei. Qual nada. Calam-se. Amém também.

Ok, ok... Agora vêm as perguntinhas sem graça. Primeiro: por que o curso de comunicação social tem de integrar o ICCA (Instituto de Cultura, Comunicação e Arte ou qualquer coisa parecida com isso)? Porque, eles dizem, o dinheiro é suficiente para replicar uma unidade da Nasa aqui. É o dobro do que seria disponibilizado caso o instituto fosse construído no Pici ou mesmo no Benfica. Desse modo pragmático, abandonaram-se os projetos de construção do instituto em metros quadrados mais plebeus. Professores que participaram da reunião no departamento garantem não ter havido muita resistência ao projeto (que, na verdade, na verdade não é um projeto, mas apenas a palavra supostamente afiançada do Reitor ou, quem sabe, um fio do seu bigode). A enormidade das cifras havia minado qualquer possibilidade de debate — e aqui se encontra o grande erro dos professores: não debater o projeto porque afinal a cavalo dado não se olham os dentes. Em conversa com a coordenadora do estilismo & moda, perguntou-se quanto do montante viria parar nos cofres estilosos do curso. Ela disse não saber, que sequer tinha conhecimento do valor total da verba mas que, ora bolas, não ia perder essa oportunidade nunquinha. De modo que os docentes que não concordavam com a mudança foram prontamente convencidos, viram-se sem palavras diante de tantas promessas e mesmo sem graça, amarelecidos de vergonha. E, fico pensando, quiseram evitar o desgaste que é se contrapor a algo que promete (só promete) trazer tanta coisa boa pra todos nós.

Mas aí vêm outras perguntas não menos irrespondíveis: não indo para o quintal do Zé D’alencar, o que perdemos todos? A verba só é liberada para os que vão? E quanto aos que resolveram (caso da arquitetura) e aos que resolverem ficar, como fica? E o que se fez do projeto de construção do ICCA no próprio Benfica? E afinal a pergunta de um milhão de dólares (abaixo, obviamente, dos 120 milhões de reais sonhados): mesmo com tantos benefícios, por que não ficar no Benfica?!

Motivos não faltam. É central (fica a dois passos do Centro, o metro quadrado mais valorizado culturalmente de Fortaleza e a alguns dos bairros, seja Messejana ou Conjunto Ceará). Está integrado aos demais cursos das humanidades (ciências sociais, filosofia, letras, direito, pedagogia e aos cursos da Feacs e aos do Pici). Quer queiram ou não, existe um arremedo de corredor cultural no Benfica, que há quarenta anos abriga os campi das humanidades. Casas de Cultura, MAUC, Casa Amarela, Rádio Universitária, jornais impressos de um modo geral (O Povo e Diário do Nordeste). E a memória, a riqueza imaterial, a história de um curso de jornalismo e publicidade que criou naquelas bandas, nutrindo-se de sua vida social, cultural e política, varando madrugadas nas ruas do bairro, alimentando-se do seu entorno, que criou enfim vínculos que são por demais caros, para não dizer inegociáveis. E agora vêm nossos queridos mestres nos dizer que podemos nos mudar que nada nos fará falta na longínqua e alheia Messejana? Que podemos trocar tudo isso por prédios novos, equipamentos tinindo e um grande teatro? Que devemos fazer isso porque a cidade está crescendo pra lá, porque temos de contribuir para o desenvolvimento social e econômico do Estado? É difícil engolir tanta desculpa esfarrapada, tanta promessa absurda e tanto desrespeito à memória coletiva e ao patrimônio imaterial da imprensa cearense.

De tudo isso, fica-se com a impressão inescapável: os docentes assim procederam porque se deslumbraram (essa é a palavra exata pra definir a situação: deslumbre) com as promessas de um reitor metido a JK, que quer, a qualquer preço, crescer 50 anos em 5, que atropela a comunidade universitária e toma decisões arbitrárias sem consulta prévia (caso do Reuni e, agora, do ICCA). Que, finalmente, sofre de uma síndrome de faraó. Que mobiliza cursos sem apresentar um projeto minimamente decente a partir do qual se possa discutir qualquer coisa e só então decidir se a construção do instituto é boa ou não para todos nós.

Finalizando. Terça-feira que vem tem conversa com a chefe de departamento do curso de comunicação social. Esperemos pra ver qual é. Mas fico angustiado: nos darão alguma coisa além dos argumentos tão sólidos quanto gelatina que, até agora, vêm pontuando esse debate? Acho difícil. Mas não custa esperar.
Enquanto isso, os estudantes têm a obrigação de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Ocupar a reitoria? Não. Afinal, o “sim” foi uma decisão doméstica, não tem nada que ver com o reitor. Quer dizer, o processo foi atropelado etc., pouco ou quase nada democrático (deixo claro que não espero nunca democracia dessa instituição, apenas decisões tomadas com base numa fisiológica e no jogo de interesses, tal e qual é a política neste País). Bom, vejamos... Quarta-feira tem assembléia dos estudantes da comunicação. As questões, mesmo as mais prosaicas, estão postas.